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A explosão não foi a única tragédia da Usiminas. Empresa escondeu até morte de funcionário em Ipatinga.

No último 8 de agosto, o operário Luís Fernando Pereira, de 38 anos, morreu ao inalar gás durante um serviço de rotina numa tubulação da siderúrgica Usiminas, em Ipatinga, no interior de Minas Gerais. Dois dias depois, um dos quatro gasômetros da empresa explodiu.

A destruição do reservatório de gás fez a terra tremer em 1.86 na Escala Richter, hospitalizou 34 funcionários, quebrou as vidraças da Câmara Municipal e deixou uma população de mais de 250 mil habitantes em pânico – a fábrica da siderúrgica fica no centro do município.

“Foi na hora do almoço de uma sexta-feira, as vésperas do Dia dos Pais. O comércio estava lotado. As ruas cheias. De repente aquele estrondo enorme. Nem as autoridades sabiam como proceder. Foi um caos”, lembra Geraldo Magela, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos da cidade.

Controlada pelo grupo Usiminas, maior produtor de aços laminados planos da América Latina, a atividade da siderúrgica na região é marcada por problemas trabalhistas e ambientais. Além de poluir o ar da cidade e contaminar o lençol freático de alguns bairros situados ao seu entorno, a usina passou a ser palco recorrente de graves acidentes nos últimos meses – boa parte deles escondidos pela empresa.

Segundo levantamento feito pelo Sindicato dos Metalúrgicos através dos Comunicados de Acidente de Trabalho – registro que a empresa precisa enviar obrigatoriamente ao sindicato e ao Ministério Público do Trabalho por conta de um acordo coletivo com a categoria –, ano passado 42 operários se acidentaram dentro do chão de fábrica da usina. O número desconsidera as 34 vítimas hospitalizadas após a explosão do gasômetro e também o trabalhador que terminou morto ao tentar fugir.

“A Usiminas alega que não houve lesão aos trabalhadores. Dá para acreditar nisso?”, diz Bruno de Almeida Pedersoli, médico do trabalho que assiste o sindicato. “Acidente com metalúrgico sempre acontece e quase nunca é noticiado. A empresa esconde mesmo. A novidade após a explosão do gasômetro é que o mundo passou a ter noção do perigo de se trabalhar lá dentro. A sensação de medo não é mais exclusividade dos trabalhadores”, completa Magela.

Em Ipatinga, a Usiminas tem 13 mil funcionários – 7 mil contratados e cerca de 6 mil terceirizados, segundo o Ministério Público do Trabalho – e é a maior empregadora da cidade. Para se ter uma ideia da influência da empresa na região, até o prefeito de Ipatinga, o emedebista Nardyello Rocha, é ex-funcionário da siderúrgica. A assessoria da empresa não respondeu ao Intercept sobre o número de acidentes ocorridos em 2018.

O tanque destruído na explosão de agosto continha uma mistura de gases LDG, abreviatura de Linz Donawitz Gás, utilizada na produção do aço. Trata-se de um material composto por monóxido de carbono, dióxido de carbono, nitrogênio, hidrogênio e oxigênio. É inodoro e incolor e também inflamável e altamente tóxico. A sorte, diz Magela, é que o gasômetro estava praticamente vazio. “Caso contrário, Ipatinga inteira teria ido pelos ares.”

Três dias depois da explosão, o eletricista Ricardo Alves, de 36 anos, teve um dos braços amputados no hospital após prender parte de seu corpo em uma máquina ainda ligada. Questionada pela imprensa regional à época, a Usiminas não explicou a causa da morte do operário Luís Fernando e tampouco o episódio que envolveu o eletricista. A justificativa para a explosão do gasômetro veio apenas quatro meses depois, no final de novembro. O relatório apresentado pela siderúrgica aponta que o acidente se deu por falha técnica no maquinário. Desde então, ninguém foi responsabilizado criminalmente pelo acidente, e os Ministérios Públicos de Minas Gerais e do Trabalho informaram que continuam a investigar os três casos.

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A empresa é a maior empregadora de Ipatinga – e até o prefeito é ex-funcionário da siderúrgica.

Foto: Nilmar Lage

Omissão

O procurador do Ministério Público do Trabalho Adolfo Jacob conta que o ministério tomou conhecimento sobre a morte de um trabalhador, ocorrida em 2016, apenas no início de 2018. E por acaso. “Eu atuava em uma reclamação trabalhista em que a viúva e os filhos do trabalhador morto processavam a siderúrgica. Foi aí que soube do caso”, lembra. Reginaldo José da Silva, que trabalhava como técnico de Energia e Utilidades em uma empresa terceirizada que atende a Usiminas, recebeu uma descarga elétrica de 3 mil kW numa subestação de energia da empresa. A suspeita é de que o acidente ocorreu por manutenção inadequada.

Outro episódio descoberto de forma não oficial pelos procuradores foi um vazamento, também em 2016. Cinco funcionários de uma empresa terceirizada ficaram intoxicados e foram hospitalizados depois de inalarem gás tóxico que vazou para o sistema que deveria filtrar o ar no topo de um dos fornos da usina. Assim como na explosão do reservatório de gás em agosto, os comunicados de acidente do trabalho não foram encaminhados ao sindicato.

Jacob, no entanto, não soube precisar com exatidão o número de ocorrências registradas nos últimos anos. “A imprensa não publica nada, e a Usiminas só se manifesta depois que o inquérito é formalmente instaurado. Por força de lei, a usina deveria informar todo e qualquer acidente. Não é o que acontece”, diz.

Gostaria que a empresa se tornasse mais humana. 

Diante da omissão, uma das ferramentas utilizadas pelo procurador para descobrir ocorrências tem sido a internet. “Muitas situações são denunciadas pelos trabalhadores por meio das redes sociais. Isso passou a nos ajudar para que tenhamos noção da realidade lá de dentro.”

O Intercept teve acesso a inúmeros vídeos feitos por funcionários da Usiminas e a boletins informativos publicados pelo sindicato que assiste à categoria. A maior parte desse material revela as condições precárias de trabalho impostas aos operários. Acúmulo de função, assédio moral de supervisores, galpões fechados sem o devido sistema de ar-condicionado, maquinário velho, vazamento de gases, entre outras situações até então ignoradas pela maior parte da sociedade que vive do lado de fora da usina.

“Gostaria que a empresa se tornasse mais humana. Que não se preocupasse com o trabalhador somente após a sua morte”, disse uma viúva de um operário, que pediu anonimato.

Questionamos a Usiminas sobre o plano de evacuação e o prazo para que seja colocado em prática, as denúncias dos funcionários referentes à más condições de trabalho, o número de acidentes e as declarações tanto do sindicato quanto do MPT de que a empresa costuma esconder essas ocorrências – entre elas, a morte de Reginaldo.  A empresa se limitou a responder que toda a sua atuação “segue rigorosamente a legislação brasileira em vigor, as normas específicas aplicáveis à siderurgia e os compromissos firmados com os órgãos competentes”.

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Em dezembro, novo susto. Uma das máquinas que transportam materiais dentro da usina pegou fogo.

Foto: Nilmar Lage

Plano de evacuação

A direção da Usiminas admitiu, 18 dias após a explosão do tanque em agosto, a possibilidade de apresentar um plano emergencial de evacuação para toda a cidade, iniciativa até então inédita no município. Entretanto, passados mais de seis meses do anúncio, nada foi compartilhado até o momento.

No dia 15 de dezembro, mais um acidente. Uma das máquinas que transportam materiais dentro da usina pegou fogo por volta das 14h30. O equipamento incendiado ficava a menos de 300 metros da prefeitura, da câmara municipal e de um dos maiores supermercados da cidade. Não precisou de muito tempo para que a combustão da borracha existente na máquina formasse uma espessa nuvem preta visível a quilômetros de distância.

“Quando vimos aquele volume de fumaça subindo o céu já ficamos desesperados. Estava pegando fogo dentro da Usiminas, outra vez. Devemos nos acostumar com isso?”, lembra o empresário Diego Andrade. “A sensação é que a qualquer hora algo muito ruim vai acontecer. E isso aumenta diante de acidentes que parecem ocorrer cada vez com maior frequência. Eu sinto medo de viver aqui”, diz o locutor Bruno Gonçalves, funcionário de uma loja de roupas próxima ao parque industrial da siderúrgica, no centro de Ipatinga.

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O último boletim sobre a qualidade do ar de Ipatinga publicado pela Secretaria de Meio Ambiente de Minas é de 2015.

Foto: Nilmar Lage

Sem Fiscalização

Além dos acidentes, a população de Ipatinga também reclama da poluição do ar e da água. Em 2010, a empresa foi obrigada por um Termo de Ajustamento de Conduta com o Ministério Público mineiro a instalar quatro painéis eletrônicos em diferentes pontos do município depois que uma investigação mostrou indícios de contaminação do ar da cidade. O objetivo era tornar público à população informações sobre o monitoramento da qualidade do ar local em tempo real.

A assessoria de comunicação da Usiminas negou o acesso aos dados do monitoramento e afirmou, sem apresentar nenhum dado, que não há risco de contaminação por gases tóxicos na cidade. O Intercept pediu informações relacionadas à qualidade do ar da cidade à prefeitura, à câmara municipal e ao MP mineiro. Nenhum dos três apresentou quaisquer dados que comprovem o devido monitoramento do ar. O prefeito Rocha sequer retornou as solicitações encaminhadas por email à sua assessoria de comunicação reiteradas vezes.

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A Usiminas foi obrigada pelo MP a instalar quatro medidores de qualidade do ar pela cidade.

Foto: Nilmar Lage

Em vistoria feita pela secretaria após a explosão do gasômetro, o órgão afirmou que não houve alteração na qualidade do ar no município. “Os dados meteorológicos indicaram que no momento e após o acidente as condições de dispersão dos gases na atmosfera estavam favoráveis”, informou o representante do governo ao site G1 no dia 12 de agosto.

Entretanto, o Intercept teve acesso a um documento apresentado pela Usiminas ao Ministério Público em que justifica a indisponibilidade de dados referente ao monitoramento de poluentes no período de 1 de junho a 16 de agosto do ano passado.

No próprio site da Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Minas Gerais, o último boletim sobre a qualidade do ar de Ipatinga publicado é de 2015. O relatório não especifica o mês em que o levantamento teria sido feito e tampouco o resultado da análise.

Não que os moradores da cidade confiem na versão da empresa. “Eu nunca vi um painel apontar qualidade ‘ruim’. É sempre ‘boa’”, diz Marcelo Antunes Dias, que reside no bairro Cariru, um dos pontos que deveriam ser monitorados conforme os termos acordo.

A dúvida é reforçada pela fumaça densa que sai das chaminés da indústria todos os dias. “Pela manhã, a poeira preta predomina no chão das casas. A Usiminas polui e quem vive aqui sabe disso”, diz Andrade, que costuma filmar a fumaça e a sujeira que ela causa e postar em suas redes sociais.

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“A Usiminas veio aqui e disse de um dia para o outro que teríamos de lacrar nosso poço. Para compensar o prejuízo, ela paga nossas contas de água”, contou a aposentada Maria Barbosa.

Foto: Nilmar Lage

Água contaminada

Também em 2010, a Usiminas foi obrigada a fazer outro Termo de Ajuste de Conduta com o MP, dessa vez devido a presença de substâncias tóxicas no lençol freático de bairros próximos à usina. A empresa deveria, segundo o acordo, realizar ações de despoluição da água – o que não ocorreu.

O bairro Vila Ipanema teve parte de seu lençol freático comprometido pela siderúrgica. Poluída por benzeno e naftaleno, substâncias fortemente cancerígenas, a água utilizada para alimentar poços artesianos da comunidade está proibida de ser consumida há dez anos. “A Usiminas veio aqui e disse de um dia para o outro que teríamos de lacrar nosso poço. Para compensar o prejuízo, ela paga nossas contas de água”, contou a aposentada Maria Barbosa.

Todos os poços da região foram fechados. “Foi um cala boca que a Usiminas deu para abafar a situação e que a maioria das pessoas aceitou sem questionar. Não existe diálogo por parte da empresa e a cidade segue sendo prejudicada. Precisamos de ajuda”, diz o sindicalista Arildo Ferreira, funcionário da Usiminas há 31 anos.

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Suspeito profissional, bacharel pós-graduado em tomar geral. Um diário de um jovem negro morando numa favela do Rio.

“Mas no meu lugar se ponha e suponha que / No século 21, a cada 23 minutos morre um jovem negro / E você é negro que nem eu, pretin, ó / Não ficaria preocupado?”.

Essa é uma parte da música Favela Vive 3, cantada pelo rapper Djonga, que desperta em mim um alerta que me acompanha desde criança: o medo de morrer nas mãos da polícia.

Não é novidade que a polícia do Rio de Janeiro está entre as que mais mata do país. O Atlas da Violência 2018 aponta que a cada 100 pessoas mortas no Brasil, 71 são negras.

A violência policial que muitos lêem no jornal e a militarização que tantos pedem – o Rio estava até dezembro sob intervenção federal na segurança, com os militares à frente da Secretaria de Segurança Pública – é, parte do meu cotidiano. E esse diário sintetiza como é ser um negro de 20 anos morador de uma favela na zona norte do Rio de Janeiro.

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O rapper Djonga.

GIF: Reprodução/Youtube

29/09/2018O DESABAFO

Vou contar pra vocês como o racismo me fez chorar hoje com duas duras em menos de dez minutos. Era dia de operação – quando a polícia ou o Exército entram na favela atirando para todos lados supostamente atrás de drogas e criminosos. Esses são os piores dias. Os comércios não abrem as portas até a operação acabar, a internet cai, às vezes, a luz também. As crianças não vão à escola, e os adultos ficam impedidos de ir ao trabalho – o que não é nem de longe o pior, quando mesmo dentro de casa e embaixo da cama a bala pode te achar.

A operação tinha começado de madrugada. Por volta das 4h, eu acordei com o som de tiros e já pensava que seria um dia perdido de trabalho. Por volta das 9h, os tiros haviam cessado e resolvi sair de casa. A polícia ainda estava dentro do morro, e o Bope vasculhava tudo com seus carros, cachorros e policiais que parecem mais transformers, grandes e robóticos. Todos a procura de traficantes. Passei por eles, mas, logo à frente, ainda dentro da favela, fui parado por soldados do Exército que estavam ao lado de uma espécie de tanque de guerra, parado próximo à linha do trem. Me mandaram “encostar”. Todos os soldados aparentavam ter no máximo 25 anos, e eram todos negros. Eles pareciam assustados ou minimamente incomodados de estarem me parando para me revistar. Eles com certeza também são moradores de favela e, quando não estão de farda, também são abordados, como eu fui. Durante toda a revista, chamei os soldados de “mano”. Foi involuntário. Eles pareciam com os meus amigos, gente que cumprimento voltando do trabalho, que encontro no baile funk. Fui liberado e segui para o metrô pensando em como aquilo era errado de várias formas. O estado faz com que jovens negros morram dos dois lados de uma guerra que nenhum deles começou.

O estado faz com que jovens negros morram dos dois lados de uma guerra que nenhum deles começou.

Já me aproximava da estação de metrô, um trajeto que costumo fazer em dez minutos a pé, quando vi um carro da PM vindo devagar na minha direção. Como estava na calçada do supermercado, que também funciona como estacionamento, eles não conseguiram chegar perto de mim com o carro – não havia lugar para pararem. Eles passaram por mim e pensei que ficaria por isso, quando o carro deu meia volta e subiu uma ruazinha transversal com a avenida Dom Hélder Câmara, a principal do bairro, que dá acesso a rua a estação de metrô Maria da Graça, onde eu pretendia embarcar. Pensei, “eles vão fazer isso pra me pegar vindo de frente na rua do metrô, pra não ter como eu fugir”. Não que eu fosse fazer isso, mas quem não deve também teme. Os quatro policiais desceram do carro, com toda a sutileza que um negro merece em uma abordagem: um fuzil e uma pistola apontadas pra minha cara. O PM que me apontava a pistola era o mesmo que tinha me parado na mesma semana, também próximo ao metrô. Ele chegou me mandando encostar na parede, abrir as pernas e a mochila. Me perguntou 40 vezes pra onde eu ia, se já tinha sido preso e riu todas as vezes que eu respondi que era universitário.

Quem não deve também teme.

Muitas pessoas passavam na rua no momento e nenhuma foi parada. Eu respondia de forma ríspida – estava com muita raiva, esse mesmo cara já tinha me parado há dois dias – e eles seguiam me ironizando, falavam que era tudo pra minha segurança. Quando falei que era jornalista, eles gargalharam. “Tu ainda tá na faculdade, seu merda, tu não é nada.” Retruquei que não era bandido. “Se tu fosse bandido já tava com a cara no chão”, completou o PM que me apontava a pistola.

Fui liberado, largaram minha mochila no chão, e mandaram eu seguir. “Vai lá, jornalista, vai escrever uma matéria sobre nós hoje”, gritavam, enquanto eu caminhava. “Ia adorar um jornalista dando uma volta de carro com a gente, quer ir não, jornalista?” Eles seguiam gritando enquanto entravam no carro. Coloquei os fones de ouvido e segui ouvindo Racionais. Essa não foi a pior abordagem que já sofri, mas foi a primeira vez que me lembro de ter chorado.

21/09/2018ELES DE NOVO

9:30h.Relatei no Facebook o que aconteceu, e o texto viralizou. Depois da minha publicação, a minha esposa ficou muito nervosa. Mesmo sabendo da rotina dos abusos da PM (ela mesmo já sofreu várias abordagens quando estava comigo), resolveu me levar até o metrô achando que a presença dela serviria para evitar que eu fosse abordado novamente. Ela estava errada. Antes mesmo de chegar em frente ao SuperMarket – um supermercado próximo ao metrô, quase em frente à Cidpol, que reúne as delegacias especializadas da cidade –, enxergamos uma viatura vindo em nossa direção. Várias pessoas seguiam para o metrô no mesmo trajeto que nós, mas só nós dois fomos abordados pela PM. Eram os mesmos policiais que haviam me parado no dia anterior – o motorista já partia para me parar pela terceira vez na mesma semana. Vieram com aquela cara irônica, mandando eu levantar a camisa e abrir a minha mochila. Perguntaram para onde eu ia (não existe direito de ir e vir quando se é negro e de favela), e respondi: “Eu tô indo trabalhar, cara. Vocês me pararam ontem e antes de ontem para a mesma coisa, eu tô com a mesma roupa, a mesma mochila. Olha aqui a minha marmita, a mesma, olha aqui a minha identidade”. O que já havia me abordado três vezes deu uma risada e voltou pra dentro do carro. O outro falou: “É mesmo, cara? Lembro não”, e riu.

22/09/2018IR E VIR?

18h.Nos finais de semana, por volta das 16h, a PM costuma formar uma blitz na Dom Hélder Câmara e para boa parte dos veículos que passam pelo local. A pista fechada é sempre a que segue no sentido do bairro de Del Castilho, na zona norte, a fim de parar as pessoas que estão saindo do Jacarezinho, Manguinhos, Arará ou de qualquer outra favela próxima. Minha esposa e eu pegamos um ônibus para Cascadura, na zona norte, onde a mãe dela mora e, assim que chegamos próximos a blitz, nosso ônibus foi parado. Dois PMs subiram no ônibus e começam a apontar o dedo para as pessoas que eles julgavam suspeitas. “Tu, tu, tu e tu, desce agora.” Pra variar, fui um dos escolhidos pra descer. Comigo desceram mais cinco jovens, três homens e duas mulheres, todos negros. Minha esposa não foi intimada a descer, mas, assustada, desceu mesmo assim pra tentar garantir a minha segurança.

Me chamaram de mentiroso e falaram que eu estava escondendo minhas drogas na minha esposa.

O retrato da dura todo mundo já conhece: mãos na parede, pernas abertas, todos olhando para o chão. Eu e os outros homens ficamos quase dez minutos na mesma posição, enquanto eles revistaram nossas mochilas e aplicavam um terror psicológico nas garotas, já que não tinha nenhuma policial mulher pra que elas fossem revistadas. Eu não ouvi, porque estava longe, mas minha mulher disse que ficaram chamando elas de mentirosas, que levariam todas para Bangu por tráfico, lembrando todas as coisas horríveis que acontecem com mulheres na cadeia… Tentaram de todas as formas me intimidar. Me chamaram de mentiroso e falaram que eu estava escondendo minhas drogas na minha esposa; ela já tinha o choro no rosto quando fomos “liberados”. Os outros que haviam sido retirados do ônibus junto comigo permaneceram parados com as mãos na parede e cabeça baixa.

Perdemos o ônibus, a nossa passagem não foi devolvida nem fomos realocados para outro carro.

Perdemos o ônibus, a nossa passagem não foi devolvida nem fomos realocados para outro carro. Voltamos ao ponto, que fica um pouco antes da blitz. Quando finalmente estávamos dentro de outro ônibus, fomos parados novamente na blitz. Subiram os mesmos policiais que fizeram a mesma seleção. “Tu, tu e tu.” Fui escolhido novamente. Antes mesmo de eu retrucar, o PM se recordou que havia me feito descer do outro ônibus há pouco e falou: “ah não, tu eu já fui, fica ai”, sinalizando que eu já tinha sido revistado, portanto poderia seguir viagem. Uma viagem que costumo fazer em 20 minutos levou duas horas. Chegamos em Cascadura abalados. Foi uma semana muito difícil.

25/09/2018A PRÉVIA

22h. Voltando da faculdade, desço no metrô Maria da Graça e caminho em direção ao Jacarezinho. Em frente à Cidade da Polícia, mais uma blitz abordava carros e pedestres que iam no sentido Jacarezinho. Quando me aproximo, sou recebido com a delicadeza de sempre da PM: uma arma apontada para cabeça seguida da ordem “levanta a camisa, rápido!” e do interrogatório. “Tá indo pra onde?”, “onde tu mora?”, “já tem passagem [pela polícia]?. Eu respondia, eles repetiam as perguntas. “Onde tu estuda?”, “onde tu trabalha?”. Eles usam essa estratégia acreditando que, se você der uma resposta diferente para a mesma pergunta num momento de tensão, está mentindo. Eu estava muito cansado para retrucar, só queria chegar em casa e fui, como de costume, monossilábico. Respondi “sim”, “não” e o necessário para ser liberado o mais rápido possível.

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Ilustração: Amanda Miranda/The Intercept

26/09/2018O RESULTADO

8h.A blitz do dia anterior era a prévia de uma operação que viria na madrugada. Às 4h, já se ouviam muitos tiros na comunidade. Às 8h, os tiros aparentemente cessaram, e sai de casa para o trabalho. Achava que a polícia já havia saído da favela, mas eu estava enganado. Carros e agentes da Core, o Bope e o blindado da UPP, a Unidade de Polícia Pacificadora, estavam por toda a parte. Os agentes vestiam toucas ninja com a face da morte ou de um esqueleto. Quando me aproximava da entrada da favela fui abordado por um grupo de quatro policiais da UPP que já estavam revistando dois garotos – como sempre, negros. Novamente, fui monossilábico. Revistarem a minha mochila e todo o meu corpo e me liberaram. Os garotos que lá estavam quando fui parado não tiveram a mesma “sorte” e lá seguiram sendo inquiridos e abusados – digo, revistados.

30/09/2018SEM HERÓIS

Depois do dia 26, passei a usar rotas e horários alternativos para ir para a faculdade e para o trabalho a fim diminuir o número de abordagens. Minha esposa e minha família começaram a me pressionar para eu deixar o Jacarezinho. É complicado: eu amo esse lugar como não amo nenhum outro na cidade, mas eles estão certos quanto à violência a que eu estou me expondo, principalmente depois de falar pros policiais que sou jornalista. A minha esposa sofre de ansiedade e depressão, e as crises dela têm piorado, principalmente quando demoro a chegar em casa. Começamos a procurar casas fora da favela. Eu amo muito o “Jaca”, mas amo mais a minha familia e eu sei que eles precisam de mim vivo. Não sou o herói que vai mudar a história da favela só por estar lá dentro, e aqui no Rio eles matam os heróis. Marielle Franco é a prova disso. Acho que está chegando a hora de me despedir da favela.

02/10/2018SEM AVISO

17h.Por volta das 17h, minha esposa me manda uma dezena de mensagens. Ela não conseguiu voltar pra casa por conta de uma operação que começou no meio da tarde, num momento em que todos estavam na rua circulando pelo comércio, e as crianças voltando da escola. Estava muito assustada e não sabia para onde ir. Me ligou imediatamente e foi para a faculdade, onde poderia esperar a poeira abaixar para poder voltar. Estava no trabalho quando recebi a ligação, tentei acalmá-la e fui ao seu encontro para que ela não voltasse sozinha. Conseguimos chegar em casa só por volta das 20h.

10/10/2018CAVEIRÃO DA PAZ

11h.Também trabalho no Observatório de Favelas. Estava no ponto esperando o ônibus para a Maré (conjunto de favelas também na zona norte do Rio), onde fica a sede do Observatório, quando uma carro da polícia passou e parou. Dos quatro policiais, três eram negros, mas a abordagem é a mesma de um policial branco. “Tem passagem?”, “tá indo pra onde?” ,”tá indo fazer o que lá na Maré?.” Pegaram a minha identidade e olharam algo no celular. Acho que era alguma coisa para checar se eu realmente não tinha passagem pela polícia. Fui liberado. Meu ônibus chegou, mas bastou chegar no ponto seguinte, na avenida dos Democráticos, para cruzar com um blindado da UPP. É o mesmo Caveirão do Bope, só que branco e com o logotipo da UPP. Os policiais que me abordaram estavam perto do blindado conversando com outros policiais. Fiquei tenso e já pensei como seria a volta pra casa. Com certeza teria operação.

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09/12/2018OPERAÇÃO VINGANÇA

9h.A favela enfrentava o segundo de três dias consecutivos de operação policial. Um morador havia sido baleado indo pro trabalho. Um cachorro de rua também levou um tiro e ganhou as manchetes – ainda não se sabe o estado de saúde do morador. O Bope e o Choque fazem uma operação de vingança depois que policiais da UPP teriam sido baleados enquanto faziam uma ronda na parte alta da favela.

Acordei no domingo com dois agentes com fuzis e touca ninja abrindo a janela da minha casa.

Isso acontece com certa frequência. O Comando Vermelho domina a parte baixa da favela, enquanto o “morrinho” é o território da UPP. Sempre há confrontos quando o CV tenta tomar a parte alta da favela. Era mais ou menos 9h da manhã de domingo quando ouvi passos no bequinho da minha casa. Dois agentes usando fuzis e touca ninja abriram a janela da minha casa. Eu estava deitado, dormindo com minha esposa. Levantei rapidamente e fui em direção à janela com as mãos levantadas, para eles não suspeitarem de nenhum movimento e atirarem em mim. Ainda com o fuzil apontado para mim, abri a porta e só pedi para que esperassem a minha esposa se vestir antes deles entrarem.

Após isso, revistaram os dois cômodos da casa e olharam dentro e atrás da geladeira várias vezes. Normalmente é pior. Nesse dia, só jogaram as roupas no chão para olhar dentro da cômoda. É uma sensação horrível, que não dá pra explicar: você percebe que o morador de favela não tem direitos. Entreguei todos os meus documentos para eles e, quando falei que era jornalista, eles perguntaram que tipo de jornalismo se tratava e se era “jornal de crime”. Respondi que o jornal cobre mais política, e eles aceitaram. Na hora que estavam indo embora, ainda mandaram eu e minha esposa aproveitarmos que estava tendo operação e não íamos sair para arrumar a casa “porque está uma zona”. Ficamos em casa o resto do dia. No dia seguinte, na segunda-feira, houve mais um dia de operação – mais um dia perdido e dentro de casa.

12/01/2018O ADEUS E A ROTINA

14h.Depois de alguns meses procurando casa fora da favela, finalmente consegui me mudar. Para não me afastar muito dos amigos, mudei para um bairro próximo. A intervenção militar no Rio terminou na virada do ano, mas a rotina continua a mesma. No dia 12 de janeiro, retornei ao Jacarezinho para limpar a casa e entregar as chaves ao senhorio. Nessa mesma semana, a favela tinha vivido uma semana inteira de “operação vingança” devido à morte de mais um policial. Quando cheguei lá, já fui recebido pela vizinha de porta, dona Branca, uma senhora nordestina de uns 60 anos que mora na favela desde que mudou para o Rio, contando uma história que não sei se me deixava feliz por não ter vivenciado ou triste pela situação das pessoas que continuavam lá. “Vizinho, tu não tá perdendo nada indo embora daqui. Eu que queria ir. Eles entraram aqui em casa de novo, deram 15 tiros no transformador de luz e não deixaram a Light entrar na favela. Ficou todo mundo sem luz. Fiquei três dias sem. Perdi tudo da geladeira, nesse calor que tá, não dava nem pra ligar o ventilador”. Não sou religioso, mas rezo pra que alguma entidade olhe por essas pessoas, porque a mão do estado vai ficar mais pesada em cima delas.

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Como Ricardo Salles adulterou um mapa ambiental para beneficiar mineradoras

Era uma segunda-feira normal de trabalho na Secretaria de Estado do Meio Ambiente de São Paulo quando Victor Costa recebeu uma demanda pouco usual. Fernanda Lemes, coordenadora do Núcleo do Plano de Manejo, pediu que ele “alterasse uns mapas”. Ele achou estranho. Não era dessa forma que esse tipo de pedido costumava vir.

Então coordenador do setor de Geoprocessamento e Cartografia da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e, portanto, responsável por elaborar mapas para qualquer tipo de empreendimento e licenciamento ambiental, ele perguntou o porquê da alteração. “Eu pedi para formalizar por e-mail”, lembra. Mapas de zoneamento levam meses para serem elaborados. São feitos por pesquisadores, discutidos em audiências públicas e aprovados pelo conselho ambiental. “Começaram a me pressionar, falando que era urgente, pedido do secretário.”

Lemes afirmou que a demanda havia surgido em uma reunião do então secretário estadual do Meio Ambiente, Ricardo Salles, com “pessoas da Fiesp”, a Federação das Indústrias de São Paulo. Segundo ela, a justificativa foi que o zoneamento da região não estava adequado para delimitar a extensão da Área de Proteção Ambiental.

O mapa em questão era o Plano de Manejo da Várzea do Rio Tietê, que havia sido elaborado por pesquisadores da USP sete anos antes. Salles e a Fiesp queriam rever o zoneamento de duas regiões específicas às margens do rio – uma entre as cidades de São Paulo e Suzano e a outra entre Barueri e Santana de Parnaíba, todas na grande São Paulo.

Em uma reunião no dia 11 de novembro de 2016, o secretário e os representantes da Fiesp marcaram no mapa, com anotações e post-its, as alterações que queriam fazer. O setor de geoprocessamento recebeu os mapas com os desejos da indústria sinalizados.

As demandas incluíam a redução de uma zona de conservação hidrodinâmica da planície fluvial, um tipo mais restritivo que serve para preservar o curso do rio, com áreas para enchentes, por exemplo. A região passaria a ser uma zona de reordenamento socioambiental e da paisagem, mais permissiva, que permite construções. A intenção era liberar atividade de mineração na região.

Desconfiado, Victor Costa pediu que a demanda fosse formalizada por e-mail. Recebeu todo o histórico: as alterações propostas diretamente pela Fiesp (mais especificamente, pela analista ambiental dos industriais, Maria Cristina Gurgel) e o pedido para que elas fossem feitas rapidamente. “Queria te pedir para tratar este tema como prioridade. O Secretário já me cobrou várias vezes a versão final dos documentos”, pediu a assessora de Salles, Roberta Buendia, à Fernanda Lemes, que foi a responsável por encaminhar a demanda ao setor de geoprocessamento.

Victor Costa respondeu por e-mail. Disse que atenderia a demanda, mas questionou o processo. “Entendemos que os mapas se referem a uma proposta de alteração do zoneamento já aprovado pelo referido Conselho”, escreveu Costa em um e-mail com cópias para os superiores e a Fiesp. “Temos a seguinte dúvida: os mapas aqui requisitados seraão objeto de uma nova deliberação do Conselho Gestor da Unidade?”, questionou, perguntando se as alterações seriam submetidas à avaliação do órgão formado por pesquisadores, sociedade civil, população e setor privado.

Não seriam. Ricardo Salles, à pedido da Fiesp, quis encurtar o processo.

“Esse pedido veio para que eu alterasse os mapas sem mostrar. Fraudar. Não colocar nome, data. Não mudar nada na legenda. Apenas mudar as cores”, diz Victor. Depois de questionar a alteração, o funcionário conta que começou a sofrer pressão e ameaças. O setor de geoprocessamento fez as alterações possíveis e entregou o mapa dentro do prazo – uma sexta-feira, 25 de novembro. Mas a equipe se negou a trocar, por exemplo, o nome “Rio Tietê” para “canal de circunvalação”. Também marcaram todas as alterações, explicitando que haviam sido feitas a pedido da Fiesp, e incluíram os créditos de quem fez o mapa original e quem o alterou.

Nos e-mails, o departamento de Victor é pressionado para fazer as alterações – sem os créditos.

A diretoria da secretaria não gostou. O Núcleo de Planos de Manejo disse que a discussão sobre a legalidade caberia ao órgão e que não era necessário “colocar a fonte” dos dados. Ou seja: a demanda era esconder que o mapa havia sido alterado.

Indignado com a pressão e por ter sido envolvido na fraude, Victor Costa pediu demissão duas semanas depois e denunciou o que viu ao Ministério Público de São Paulo. “Era a única forma de impedir que o novo mapa fosse aprovado”, diz. Foi acusado por Ricardo Salles de fazer parte de ONGs e de ser “eco-xiita”. Um de seus ex-colegas foi perseguido em reuniões e o outro, mudado de área sem aviso prévio depois que voltou de férias.

O MP denunciou Salles, a Fiesp e outros responsáveis. O então secretário justificou, em depoimento aos promotores, que havia “erros crassos” no material e que as alterações foram discutidas em “várias reuniões” na secretaria. Disse que, para “dar celeridade ao processo” e “desburocratizar”, fazia as convocações para as reuniões por e-mail – e não apresentou provas. E disse que, em divergências, “alguém tinha que tomar a decisão. E assim foi feito”. As alterações, para ele, “foram feitas para dar segurança jurídica” e não colocar empresas, pessoas e o Estado “na ilegalidade”.

Não colou. Salles foi condenado por improbidade administrativa, com multa de dez vezes o seu salário na época, e teve seus direitos políticos suspensos por três anos.

A condenação saiu no dia 18 de dezembro de 2018. Duas semanas depois, ele assumiu o cargo de ministro do Meio Ambiente na gestão de Jair Bolsonaro.

Desburocratização, a alma do negócio

Para entender a ascensão na carreira do advogado Ricardo de Aquino Salles ao mais alto escalão ambiental do país, é preciso olhar para sua carreira prévia. Mais especificamente, para seu trânsito fácil entre o setor privado e o governo, a começar pela gestão tucana de Geraldo Alckmin, onde o fundador do movimento Endireita Brasil ocupou seu primeiro cargo público.

Como político, Ricardo Salles foi um fiasco. Ele concorreu a deputado federal pelo PFL em 2006, a deputado estadual em 2010 pelo DEM, a vereador pelo PSDB em 2012 (renunciou à candidatura) e a deputado federal em 2018 pelo Novo. Perdeu todas. O máximo que conseguiu foi a posição de suplente em 2010 na Assembleia Legislativa de São Paulo. Como advogado, defendeu construtoras e uma das herdeiras de Hebe Camargo. Também foi diretor jurídico da Sociedade Rural Brasileira, associação que representa os interesses do agronegócio.

Em 2013, abandonou a advocacia e começou a trabalhar como secretário particular de Geraldo Alckmin, então governador de São Paulo. Nessa época, recebia um salário de R$ 12 mil e quase foi preso por não pagar pensão alimentícia de R$ 3 mil aos filhos. No processo, alegou que não tinha “condições financeiras” para pagar os R$ 28 mil que devia à ex-mulher pelos meses de pensão atrasada.

O período na iniciativa privada rendeu ótimos frutos a Ricardo Salles.

No começo do ano seguinte, no entanto, ele deixou o Palácio dos Bandeirantes e voltou para o setor privado – para a Vila Olímpia, no escritório da incorporadora Bueno Netto. Ele seria encarregado de cuidar do imbróglio judicial que a construtora tinha com um empreendimento chamado Parque Global, que seria um conjunto de dezenas de prédios na marginal Pinheiros, no Morumbi.

O terreno, que antes pertencia à Light, companhia elétrica de São Paulo, havia sido abandonado por contaminação por zinco e manganês. Foi preparado, comprado, autorizado pela prefeitura em 2010 e lançado em 2013 – mas a obra acabou embargada no ano seguinte pelo Ministério Público por problemas ambientais e urbanísticos. Segundo o MP, apenas parte do empreendimento havia sido autorizada pela prefeitura. O órgão também exigiu que a construtora retirasse a terra poluída do local – o que, segundo a Bueno Netto, inviabilizaria o empreendimento.

Defendida por Salles, a construtora fez uma reclamação formal contra o Ministério Público, alegando que já tinha cumprido os pré-requisitos para a obra. A justiça acabou embargando definitivamente o Parque Global, mesmo com a construtora conversando diretamente com o governo de Geraldo Alckmin.

O prejuízo chegou a R$ 500 milhões, entre gastos com publicidade, obtenção de licenças e manutenção do espaço, fora os R$ 800 milhões da compra do terreno e a obrigação de devolver o dinheiro de 300 clientes que compraram apartamentos na planta.

Dos processos milionários envolvendo antigas sociedades desfeitas para o empreendimento, a Bueno Netto foi condenada a pagar R$ 160 milhões aos antigos sócios, mas só pagou R$ 10 milhões – foi o dinheiro encontrado na justiça no processo de falência. Ainda no alvo do Ministério Público paulista, Ricardo Salles foi investigado por atuar na Bueno Netto, segundo os procuradores, cometendo fraudes para blindar o grupo que ele defendia. De acordo com o MP, mesmo atuando para um grupo privado, ele se apresentava como sendo “ligado ao governo do estado”.

O período na iniciativa privada rendeu ótimos frutos a Ricardo Salles. O ex-devedor de pensão declarou, na eleição de 2018, um patrimônio de R$ 8,8 milhões – um aumento de 4.000% desde sua primeira tentativa de eleição, em 2006.

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Ricardo Salles e Jair Bolsonaro: nomeação do ex-advogado acalmou os ânimos dos ruralistas e do setor industrial.

Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

Ideologia? Só os outros têm

Salles se tornou secretário estadual do Meio Ambiente pouco depois, em julho de 2016, na gestão de Alckmin. Então membro do PP, ele era próximo à ala do PSDB que apoiava a candidatura de João Doria à prefeitura de São Paulo, mas sua presença era incômoda para parte do PSDB. Quando Salles chegou ao governo como moeda de troca do PP pelo apoio a Doria, o tucano Alberto Goldman se disse “enojado”.

A adulteração nos mapas aconteceu três meses depois de sua posse como secretário. E não foi sua única acusação. Foi investigado por abrir uma chamada pública para vender 34 áreas do Instituto Florestal – sem passar pelo rito legislativo. Depois, tentou negociar a sede do Instituto Geológico para obter recursos para fusão com outros dois institutos – sem que eles concordassem, ideia interrompida pela Procuradoria Geral do Estado. Em 14 de junho de 2017, o Ministério Público Estadual acusou o secretário de advocacia administrativa – ou seja, de favorecer o interesse privado usando a administração pública. Neste caso, os interesses da Bueno Netto, a incorporadora para a qual ele havia trabalhado.

Pouco antes de deixar a secretaria, em um evento em Cajati, no Vale do Ribeira, em São Paulo, Salles se indignou com um busto de Carlos Lamarca, guerrilheiro de esquerda morto em 1971. Pediu ao prefeito que funcionários retirassem o busto. A estátua foi arrancada e levada por viatura da polícia ambiental até a capital paulista, e o pedestal, demolido. A passagem dos guerrilheiros da Vanguarda Popular Revolucionária, em 1969, era um atrativo histórico na pequena cidade.

O Ministério Público de São Paulo acusou Salles de improbidade administrativa ambiental por ordenar a remoção “à revelia do devido processo legal administrativo e apenas imbuído de patente móvel ideológico incompatível com o exercício da nobre função pública que ocupava”. Como secretário do Meio Ambiente, Salles não tinha poder para tomar a decisão, de acordo com o MP, mas achou importante remover qualquer vestígio de esquerda por onde passou. Uma posição curiosa para quem hoje diz rechaçar a “perseguição ideológica”.

No dia 28 de agosto de 2017, Salles pediu demissão. Segundo o G1, a decisão partiu do PP, descontente com o desempenho do secretário. Salles disse que saiu com a “sensação de dever cumprido” e que voltaria para o setor privado. Deixou o PP, foi para o Novo e, pouco mais de um ano depois, voltou para o setor público no alto escalão de Jair Bolsonaro.

Folheto da campanha de Ricardo Salles para deputado federal.

A favor da ‘autodeclaração’ das empresas

Com a tragédia de Brumadinho, provocada pela mineradora Vale, o ministério do Meio Ambiente assumiu uma inesperada posição central no início do governo Bolsonaro. O presidente chegou a cogitar a fusão da pasta com o ministério da Agricultura – o que, na prática, submeteria órgãos como o Ibama aos interesses agropecuários –, mas voltou atrás após uma dura reação da sociedade civil. Acabou nomeando, então, o ex-colega do PP, Ricardo Salles, agora filiado ao Novo.

Com uma campanha eleitoral em que prometia “munição de fuzil” contra o MST, chamou a atenção de Bolsonaro. “Vocês gostaram do ministro do Meio Ambiente agora, né?”, disse Bolsonaro a ruralistas logo após a escolha, em um vídeo gravado no Clube Militar de Brasília.

Assim como seu chefe e seus colegas, Salles chegou ao ministério motivado a extirpar a “ideologia” de esquerda. Disse que “perseguição ideológica não é saudável para ninguém” e que sua gestão seria responsável por “harmonizar” os interesses. Seguindo a cartilha de seu chefe – que queria no ministério alguém “sem caráter xiita” e proteger o meio ambiente sem “criar dificuldades para o nosso progresso” –, Salles disse que no Brasil há um “descontrole na aplicação da lei e da fiscalização”.

Depois de Brumadinho, o ministro classificou a atual lei ambiental como “complexa e irracional”. “Recursos humanos que deveriam estar focados nas questões de médio e alto risco estão sendo dispersos. Precisamos de legislação que funcione, licenciamento que funcione”, disse.

‘É uma legislação tão complexa e irracional que não funciona’, disse Salles.

A flexibilização e a simplificação das leis ambientais é uma demanda de setores como a mineração e a agropecuária, que fazem lobby para aprovar o licenciamento para o setor. A proposta de Salles, defendida antes de Brumadinho, é que a liberação possa ser feita com uma “autodeclaração” – ou seja, o empreendedor diz que a obra está ok, e a fiscalização vem depois. Na proposta de Salles, não fica claro, por exemplo, quem define o grau de impacto ambiental de uma obra.

Se depender do histórico de defesa dos interesses corporativos e “desburocratização” – uma palavra bonita que ele usou para justificar não ter cumprido os ritos tradicionais dos processos ambientais em seu período como secretário –, não é difícil deduzir a quem o seu posicionamento vai beneficiar.

Enquanto Salles recorre da condenação, o Ministério Público paulista entrou com uma apelação pedindo que ele seja impedido de exercer o cargo de ministro. Segundo o MP, a mudança nos mapas ordenada por Salles poderia provocar “gravíssimas consequências”. Os condenados, segundo os promotores, agiram “com a clara intenção de beneficiar setores econômicos, notadamente a mineração”. Vale lembrar que a justiça paulista livrou o ex-secretário – e também a Fiesp – de uma multa milionária pelos possíveis danos ambientais decorrentes das alterações. Outro advogado entrou com uma ação para tentar impedir que Salles assumisse, mas a justiça paulista negou o pedido. “Gostando ou não da escolha, parece que ainda foi feita dentro do espaço de discricionariedade política próprio do cargo de Presidente da República”, disse o juiz na decisão.

Em entrevista à Jovem Pan, o ministro atribuiu a condenação à perseguição “ideológica”, como de praxe. O ministro disse que “esse processo e a decisão são muito mais um combate político-ideológico contra a postura que eu adotei na secretaria do que qualquer ilegalidade formal”. E que Bolsonaro reconhece isso.

Apesar das denúncias, Salles assumiu normalmente o ministério. Sua agenda foi ocupada, principalmente, por encontros com ruralistas, empresários, banqueiros e mineradoras – nenhuma reunião com ambientalistas e pesquisadores da área aconteceu em seu primeiro mês no ministério. Na quarta-feira, 23, se encontrou com representantes da Frente Parlamentar de Agropecuária e, logo depois, com Luiz Eduardo Fróes do Amaral Osório, diretor-executivo de Sustentabilidade e Relações Institucionais da Vale. Dois dias depois, a lama desceu sobre Brumadinho.

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